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sábado, 29 de junho de 2013

Concepção Escolar da Leitura.


Por Monique Beltrão.
            Muitos professores reclamam que os alunos não gostam de ler. Mas se formos analisar a concepção de leitura na escola, veremos que eles tem razão.
            1º - Há uma grande pobreza no ambiente de letramento.
            2º - A formação precária de profissionais da escrita que não são leitores.
            O francês Bellenger pontua bem quando diz que “leitura e desejo...”e que “pouco a pouco o desejo desaparece sobre o prazer”.
            Infelizmente não é isso que verificamos nos alunos e nas escolas.
            Na escola, leitura é uma atividade árida, e muitas vezes sem prazer. São utilizadas práticas desmotivadoras, que provém , basicamente de concepções erradas sobre a natureza do texto e da leitura.
            Para muitos alunos a leitura é difícil demais justamente porque ela não faz sentido.
            Para muitos o saber lingüístico está desvinculado do uso da linguagem: Ou reivindicam a regra gramatical ou a decifração de letras e sílabas como um fim em si mesmo.
            É preciso que se faça um exame de como tem sido a prática.
            1 - Como tem sido para os alunos as concepções sobre texto.
            a) - O texto é visto como conjunto de elementos gramaticais. O texto é apenas um pretexto para o ensino de regras sintáticas.
            Nos exercícios notamos que os alunos tem que copiar palavras do texto, sublinhar ditongos etc.
b)  - O texto é visto como repositório de mensagens e informações, na crença de
 que o papel do leitor é extrair informações através do domínio das palavras.  Isso traz uma séria conseqüência um leitor passivo e disposto a aceitar a contradição e a incoerência.
            2 - Concepção de Leitura.
            a) - Leitura como decodificação.
            Muitas vezes a leitura se reduz a ser um mapeamento entre a informação gráfica da pergunta e sua forma repetida no texto.
            Essa prática muitas vezes é mecânica e despensa qualquer engajamento intelectual.
            Outra prática incorreta é o descaso em relação a voz do autor. Quase não se encontra perguntas assim “você” acha que o autor esta certo?
b)  - A Leitura como avaliação.
            Esse tipo de prática inibe, ao invés de promover a formação de Leitores.
            Há uma prática nas primeiras séries que é o aferimento da capacidade de leitura. Essa prática só prejudica a formação de bons leitores. Além de afetar a autoconfiança, atrapalha o desenvolvimento da compreensão.   
                A leitura muitas vezes é cobrada mediante resumos, relatórios e preenchimentos de fichas, reduzindo a atividade a uma avaliação desmotivadora.
            Muitos constróem o conceito que leitura “fora da escola” é prazer e dentro da escola é dever.
            Devemos levar o aluno a perceber quando a experiência dele enquanto leitor é indispensável para construir o sentido do texto.
            A leitura tem que ser entendida como entendida como interlocução.
                As concepções sobre o texto e leitura são então:
            1 - O texto como conjunto de elementos gramaticais.
            2 - O texto como repositório de mensagens e informações.
            3 - A leitura como decodificação.
            4 - A leitura como avaliação.

            A união dos aspectos que fazem da atividade escolar uma paródia (imitação) da leitura se integram em uma concepção autoritária da leitura que parte do pressuposto de que há apenas uma maneira de abordar o texto e uma interpretação a ser  alcançada. Essa concepção de leitura permite muitas deturpações que agora resumimos:
             Análise de elementos discretos ao invés de serem analisados os elementos relevantes e/ou representativos que são os que realmente contam para a significação do texto.
             A dispensabilidade da experiência do aluno quando esta é indispensável para a construção do sentido pois as leitoras são reconstruções de significados algumas mais e outras menos adequadas, segundo objetivos e intenções do leitor.
             A leitora deve ser entendida como interlocução, sendo apenas uma das atividades da linguagem, interlocução só que à distância. Também a leitura é produto de uma intencionalidade escrita por alguém com alguma intenção de chegar a alguém para informar, persuadir, influenciar, etc.
                Pois bem juntando as concepções equivocadas de texto e leitura as abordagens metodológicas utilizadas em sala de aula justifica-se a falta de interesse dos alunos.
            A partir de uma pesquisa feita com 60 professores  foi elaborado um roteiro que mostramos a seguir para um estudo de texto.
            1 - Motivação do aluno, através de uma conversa sobre o assunto geral do texto.
            2 - Leitura silenciosa, sublinhando palavras desconhecidas.
            3 - Leitura em voz alta, por alguns alunos, ou por todos em grupo.
            4 - Leitura em voz alta pelo professor.
            5 - Elaboração de perguntas sobre o texto por parte do professor, quase sempre com elementos explícitos.
            6 - Reprodução do texto (ou outra atividade de relação ligada ao tema do texto)
            (ensino gramatical mediante o ditado de palavras retiradas do texto, ou outras.)

            A prática de sala de aula, não apenas da aula de leitura, não propicia a interação entre professor e aluno.
            Em vez de um discurso construído entre professor e aluno, temos um monólogo onde o professor transmite para os alunos uma versão, que possa ser a versão autorizada do texto.
            Mas, por pesquisas recentes sabe-se que é durante a interação que o leitor mais inexperiente compreende o texto, durante a conversa sobre os aspectos relevantes de texto.
            Na aula de leitura, em estágios iniciais, o professor serve de mediador entre o aluno e o autor.

Processamento

A leitura e como se lê esta embasada em modelos definidos. Estes modelos, lidam                                    
com a relação entre sujeito leitor e o texto enquanto objeto, entre linguagem escrita e compreensão, memória, influência e pensamento. Este leitor compreende o texto, trabalha o texto na mente e armazena na memória as informações necessárias e as vezes as não necessárias.
            O conhecimento do aspecto psicológico, cognitivo da leitura é importante porque ele pode nos alertar de maneira segura contra práticas pedagógicas que inibem o desenvolvimento de estratégias adequadas para processar e compreender o texto. A partir dele, entendemos como muitas vezes o processamento torna-se mais difícil.  
            Entendemos o texto, a partir das funções superiores que estão envolvidas, para construir o sentido do texto.
            Nos deparamos com o professor, focalizando aqueles aspectos que apontam para a adequação ou não de abordagens pedagógicas. Daí, necessariamente a ação de uma pedagogia facilidadora.
O processamento do objetivo:

            Material Escrito
                          ß
            olhos “input”
                           ß
            Memória de Trabalho ® Local onde organiza em unidades sintáticas, segundo
                                                   regras e princípios de nossa *gramática implícita,    o
                            ß                     material( palavras, chave, frases, etc.)
            
            Fatiamento   ®                 capacidade do leitor estocar o material que está  
                                                     entrando mediante a percepção e para agrupá-lo
                         ß                          em unidades significativas com bases no conhe-
                                                     cimento da língua.
              
            Memória Intermediária.

                        ß                                               ­

            Memória Semântica./Memória profunda. “Feed - Back”             
             
                                                           *Gramática Implícita - Conhecimento que temos por
                                                            sermos falantes da língua . Diferente do conheci    -
                                                              mento adquirido na escola.


            A memória de trabalho é uma capacidade finita e limitada um vez que não pode trabalhar com mais de aproximadamente 7 unidades ao mesmo tempo: à medida que vão entrando as unidades, a memória precisa ser esvaziada de modo que permaneça entre 5 e 9 unidades sendo trabalhadas.
            O interessante aqui é que não importa o tipo de unidade usada par o FATIAMENTO. Precisa-se apenas uma unidade significativa. Seja: letra, sílaba, palavra e números que no caso; podemos percebe-los como dígitos ou como unidades com significados.
            Exemplo:
                        Data Importante.
                        Número de Telefone.
                        Número de Casa num Endereço Familiar.

            A Percepção do Objeto.

            A percepção do objeto é individual, não percebemos tudo que vemos e não reagimos da mesma maneira. O que é semelhante na percepção do texto através dos olhos é o tipo de mecanismo usado para apreender o objeto.
            Possuímos um MOVIMENTO SACÁDICO durante a leitura, os olhos se fixam num lugar do texto e depois pula um trecho, para fixar em outro mais distante. O MOVIMENTO SACÁDICO  permite uma leitura rápida, porém não parece nada com leitura dinâmica.
            Durante a leitura o próprio leitor utiliza com o material a maneira correta e cômoda para se ler. O leitor lê, repete, volta; quando não compreende. Grande parte do material que lemos é adivinhado ou inferido, não é diretamente percebido, reconheço as palavras como as pessoas que fazem parte do nosso dia-a-dia ou de nossas relações. Portanto, só de começar a ler a palavra, sem querer já adivinhamos qual é, mesmo que ela esteja escrita.

            A Memória de Trabalho.

            Nossos olhos correm durante a leitura, porque lemos tão rapidamente?
            - Para podermos organizar os traços no papel em material significativo.

Letra   ®  Sílaba   ®   Palavras   ®   Frases   ® Proposições e Significações.

            A memória de trabalho estoca o material e permite a organização em unidades sintáticas, segundo regras e princípios de nossa Gramática Implícita; conhecimento que temos por sermos falantes da língua, não em relação ao conhecimento gramatical adquirido na escola.
            É a capacidade do leitor de estocar o material que está entrando mediante a percepção e para agrupa-lo em unidades significativas.
            No início a leitura será muito mais difícil para o leitor e por isso ela fica quase que limitada à decodificação, se o professor não tornar a atividade comunicativa, dificultará o processo.
            O professor deverá favorecer o processamento INTERATIVO;TOP-DOWN que vão do conhecimento do mundo, para nível de decodificação da palavra ou conjuntamente com estratégias de pensamento BOTTOM-UP
            O leitor que lê vagarosamente com certeza deverá ter dificuldade de aprendizagem, onde não conseguirá perceber o que já leu no decorrer do texto. O professor deverá favorecer este leitor, inicialmente dando-lhe atividade prévia a leitura. Um exemplo seria trabalhar com palavras chaves do texto.
            A leitura em voz baixa pela criança, ou em voz alta pelo adulto, cumprem os dois objetivos de servir de modelo e de criar contexto de aprendizagem.
            Em determinadas pesquisas mostram que quando a criança ao ler troca palavras, “erra”, por palavras do mesmo sentido sem que estejam escritas, mostra que certamente essa criança está percebendo o sentido do texto.

            Dificuldades no Processamento: Diferenças entre a Forma Escrita e a Falada.

            Linguagem escrita dificuldades, linguagem oral relativa facilidade.
            A escrita só se torna mais fácil, quando existe uma situação de relação entre os interlocutores. Isto é, a função interpessoal, seria a mais importante.
            Já na leitura, as condições da interlocução são muito diferentes, sendo a distância entre os interlocutores uma fonte de grande número de dificuldades. Existe ali um autor responsável pelo fio unitário de significação presente no texto.
            Outra fonte de dificuldade é quando o texto apresenta diferenças entre o texto escrito e a fala. Na escrita podemos rescrever, registrar, rever, apagar, elaborar novamente, revisar para resultar em diferentes estruturações; contudo, pode causar dificuldades para o processamento, para a apreensão do objeto do ponto de vista cognitivo.
            Só conseguimos entender a escrita quando conseguimos entender as palavras, as estruturas da linguagem escrita e o vocabulário, por outro lado, perde-se o sentido e nos tornamos com dificuldades em decodificar ou concluir a mensagem.
            No entanto, o professor deve estar atento para resolver as dificuldades que o uso de estruturas típicas da escrita que podem causar para o leitor dificuldades no entendimento, por muitas das vezes a linguagem ser desconhecida para o leitor. Como por exemplo os próprios livros didáticos.

            Tornando o processo mais complexo.
            A Leitura do Livro Didático.

Segundo a autora, o livro didático contém estruturas sintáticas complexas.
Essas estruturas são intercalações ou encaixes, inversões de ordem canônica, anáfora que são mecanismos para ligar e retornar palavras que se referem a uma mesma coisa no texto.

Intercalações e Encaixe.

Estruturações que enterropem o processamento de uma determinada unidade, como orações com opostos, orações adjetivas. A continuação pelo processador não se concretiza devido a presença desse material, que interrompe a seqüência.
  Os elementos intercalados geralmente dificultam o processo pelo fato de tornarem mais complexa uma determinada unidade.

Inversões de Ordem Canônica.

Outro fator que pode trazer dificuldades para o processamento pode ser causado por diversas rupturas da ordem canônica. Quando um tema deixa de ocupar um lugar talvez mais esperado, imediatamente depois do verbo transitivo, na seqüência sujeito, verbo e objeto.

Anáfora.

Faz parte do processamento do texto a construção de ligações, ou ELOS COESIVOS, que permitem relacionar e retornar elementos do texto à procura de significados consistentes com o que já processamos e coerentes com o nosso conhecimento. Um tipo de construção de elos coesivos tem a ver com a atribuição de referências extra textual ao elementos que se repetem no texto.
O leitor eficiente pode recuperar automaticamente esses elementos, mas o leitor menos proficiente perde de vista, tanto o que se esta dizendo como de quem.






Por: Monique Ferreira Monteiro Beltrão.
Pedagoga, Psicopedagoga
Especialista em Direito Educacional
Escritora
Professora Universitária
Mestra em Educação.




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